O cru retrato da guerra

Resenha crítica – Hiroshima, de John Hersey
Por Magdalena Bertola

Eram oito e quinze da manhã do dia seis de agosto de 1945. A cidade acordava como havia acordado há tempos naqueles anos de guerra. Algumas pessoas iam trabalhar, outras tentavam achar um lugar seguro para seus pertences, para que não fossem destruídos por possíveis ataques de B’s52, outros apenas viam o que os vizinhos faziam.

Nesse cenário, o clarão, que foi descrito por John Hersey, como um ‘clarão silencioso’, rasgou o céu daquela cidade japonesa. Seu nome? Hiroshima.

No início, ao se olhar a capa com a declaração “A mais importante reportagem do século XX”, pode-se achar que é exagero, que estão ‘forçando a barra’. De fato, é uma declaração um tanto quanto perigosa, já que a produção jornalística é extremamente vasta e recheada de bons produtos. Só tem um detalhe, Hiroshima pode, sim, ser considerada como uma das mais importantes reportagens do século passado. Nenhuma outra publicação trouxe tamanho retrato da destruição causada pelos Estados Unidos e pela Segunda Guerra Mundial – sem contar, claro, os relatos feitos sobre os judeus. Até então, o Japão era apenas um aliado da Alemanha Hitlerista. Não merecia perdão, haviam atacado Pearl Harbour, mereciam a bomba atômica, mereciam servir de exemplo. Mas se esqueceram que não foram os civis japoneses que começaram a guerra. Se esqueceram que, ali, haviam inocentes, crianças que nem sequer sabiam o que era a guerra, ou que se estava em guerra.

Em 153 páginas, o jornalista, na época em serviço à famosa revista The New Yorker, traz aos leitores a imagem da destruição. Hiroshima não virou pó, como alguns podem ter aprendido. É certo que alguns moradores – vítimas – viraram, sim, pó. Morreram sem saber por quê, nem como. Morreram sem saber que morriam, sem saber que morreram, simplesmente deixaram de existir. Outros ainda deixaram um rastro, uma sombra de humano nos escombros da cidade.

O livro, que foi batizado com o nome da própria cidade alvo, mostra como, após ter sido usada de experiência para uma nova arma de destruição em massa, a cidade morreu, ao mesmo tempo que sobreviveu, por alguns dias, moribunda, com a respiração pesada e os enjoos de quem é contaminado pela radiação, mas com o silencio, a espera muda pela morte que só poderia vir de um povo como o japonês, tão ligado em não incomodar os outros.

Nas páginas que se seguem à explosão em forma de cogumelo, Hersey nos mostra, pelo olhar de seis sobreviventes, o que ocorreu ali, como foi ficar horas embaixo de uma estante imensa, acreditando não ter mais uma das pernas, ou como foi ser o único ileso dentre tantos mutilados, meio vivos meio mortos, sem olhos nas órbitas, sem pele no corpo, implorando por água, por tratamento, por ajuda, por vida, ou por morte, qualquer coisa que pelo menos diminuísse um pouco o sofrimento causado não se sabia nem pelo quê, nem como, só se sabia que havia acontecido. E o clarão, ele era responsável. Silencioso, brilhante, fatal.

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Fonte da imagem: Ruteando

Hiroshima prende o leitor porque, apesar de descrever detalhadamente o cenário de horror de uma cidade devastada pela maldade e mesquinhez humana, mostra que ali ainda existia um pouco de amor, ou pelo menos de civilidade. Alguns não dormiam, como o médico Terufumi Sasaki que, quando finalmente conseguiu pegar o trem que, incrivelmente, ainda funcionava, para visitar sua mãe e deixa-la a par de sua sobrevivência, caiu na cama para dormir por três dias. Fica-se ávido para saber o que aconteceu em seguida.

Os depoimentos dos seis sobreviventes, pincelados por histórias menores de outras vítimas, nos transporta para aquele cenário de tragédia, nos faz ver corpos pela rua, nos faz imaginar nossa casa reduzida a escombros, nos faz ouvir os gritos abafados de pessoas soterradas no que antes eram suas casas e faz o estomago revirar, o coração apertar ao não poder tirá-las de lá, por não poder salvá-las, dar-lhes uma segunda chance, nem que fosse uma sobrevida. Dói. Dói como doeu no padre alemão Wilhelm Kleinsorge, que não conseguiu salvar quem gritava e gastava os últimos minutos de oxigênio impulsionado pelo instinto de sobrevivência, sugado pela terra e pelos restos das casas.

A corrida pela vida – a própria e a dos outros -, dos sobreviventes, em especial dos religiosos e dos médicos, que se empenhavam em pelo menos tentar diminuir o sofrimento daqueles em pior estado de saúde do que eles, é emocionante. A história da moça que trabalha na fábrica de fundição de estanho, que tinha um noivo, e ficou prensada embaixo de uma estante, depois ficou dois dias ao lado de pessoas extremamente mutiladas, mais até do que ela própria, nos faz pensar: ‘e se fosse eu?’.

A senhorita Toshiko Sasaki, a qual parte da história acabou de ser descrita, não foi visitada pelo futuro esposo e, quando finalmente se viram, acabou por descobrir que a família do rapaz não queria mais que seu filho se casasse com ela. O motivo era o preconceito que havia surgido pelos hibakusha, ou os sobreviventes da bomba atômica. Para piorar a situação de Toshiko, ela agora era aleijada, sua perna não funcionava como antes. Ela nunca arranjou um marido e, apesar de no início de sua amizade com o padre Kleinsorge não acreditar em Cristo, ao cabo que perguntou ao clérigo que, se o deus dele era tão bom, porque teria então deixado tamanha catástrofe acontecer com tanta gente direita, acabou por se tornar uma freira. E na ordem das Auxiliatrices du Purgatoire fez seus votos e, de Toshiko passou a ser Dominique Sasaki.

Hersey a descreve em uma frase que mostra a mudança que tamanho desastre, ou desgraça, como queira chamar, pode ter na vida de alguém: “Seu [da senhorita Sasaki] maior talento consistia em ajudar os internos a morrer em paz, ela dizia. Tinha visto tanta morte em Hiroshima, depois da bomba, e presenciara tanta coisa estranha que as pessoas faziam ao confrontar-se com o fim, que agora não se surpreendia nem se assustava com nada”.

Todos os personagens acabaram por, de alguma maneira, tentar mudar a realidade do que sobrou de Hiroshima e seus moradores que, apesar de terem padecido junto com a cidade, não a deixaram morrer e a trouxeram, aos poucos, no início da maneira mais básica e simples, da maneira como podiam naquele cenário de guerra, de volta à vida.

Dividimos com as vítimas a dúvida sobre o que os havia atacado. Seria gasolina? Seria um ataque de ‘cesta de flores Molotov’ – Molotoffano hanakago, até a maneira dos japoneses descrever um ataque aéreo, tão violento quanto os Molotov, consegue ser poético – ? Não sabiam, mas especulavam.

Todo o horror de um ataque atômico, o horror da guerra que muitos de nós só conhecemos pelo cinema, torna-se real ao ler Hiroshima. John Hersey consegue, de maneira simples, mostrar a quem está tão distante, a quem nem sabe o que é guerra, o motivo real de se desejar o fim dos conflitos, principalmente daqueles movidos pela imensa megalomania dos governantes, de desejar a verdadeira paz. Não somente a mim ou a você, mas a todos, não importa a religião, a língua, a etnia. Só importa a vida.

Quarenta anos depois, os hibakusha ainda sentiam os efeitos daquele ataque. Para alguns, ainda houve vida, para outros, apenas sobrevida e, para todos, o vigor nunca mais foi o mesmo. Perderam a força, não do pensamento, não da vontade, mas do corpo. Não eram mais os mesmos, jamais seriam.

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Gafe

Quando alguém acena na sua direção na rua, e você acena de volta, e ai percebe que não era pra você, sua vontade é de abrir um buraco no chão e se jogar dentro, ou simplesmente evaporar no ar feito fumaça. Mas não, não dá, meu querido. Sua cara de vergonha e sua tentativa desesperada de fugir da situação só deixa tudo mais engraçado para os espectadores, que sempre estão de plantão, olhando para sua face, enrugada de vergonha nessas horas. Ah, a gafe! Erros idiotas que cometemos sem a mínima noção e intenção. Uma palavra, um gesto, até um olhar pode ser a lápide que irá sepultar sua reputação, mesmo que seja só na sua cabeça.

A rainha das gafes que eu conheci na minha vida foi minha querida tia-avó, a Tia Dora. Ela, do contrário da grande maioria da população mundial, não fazia nenhuma questão de esquecer suas gafes. Na verdade, ela contava para todo mundo, e sempre gargalhava, lembrando de suas proezas.

Umas das memórias mais nítidas que tenho dela é de quando eu tinha cerca de oito anos. Naquela época, sempre visitávamos minhas tias-avós (por conta de todas terem mais de 90, eu carinhosamente as apelidei de irmãs Destino, ou Moiras, aquelas irmãs da mitologia que tecem o fio da vida) para tomar café da tarde. Nesse dia, estávamos na sala e ela resolveu contar uma de suas gafes, acontecida na juventude, lá pela década de 40.

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Insira uma legenda

A então jovem Dorothy, moça muito bonita, pobre, mas trabalhadora e sempre muito arrumada, continuava usando as meias finas, mesmo quando elas já estavam furadas, por conta de o dinheiro ser curto. As meias só iam para o lixo quando elas já estivessem pedindo arrego de suas funções. Um belo dia, ela se arrumava para ir ao baile e teve que vestir uma que estava desfiada, mas para que o desfiado não aparecesse, ela deixou a ponta da meia, aquela que vai nos dedos, solta, e não justa no pé, colocando embaixo da sola, e calçando o sapato. E lá se foi para o baile. Chegando lá, um moço a tirou para dançar. Passo vai, passo vem, o moço então a girou, jogando ela para baixo e fazendo com que ela erguesse uma das pernas, no melhor estilo tango. Seria tudo lindo, e normal, não fosse o fato de que o sapato voou do pé da tia Dora, indo parar do outro lado do salão, e deixando aquela língua de meia pendendo da ponta do pé, ainda no alto, sendo visível para todo o baile, enquanto balançava num ritmo que não batia com o da música.

Pois é, e se tentamos consertar, tudo piora. E sempre piora! E não adianta fugir, se esconder dentro da bolha da sua casa, embaixo do seu cobertor, com medo do monstro da gafe. Não tem jeito, nem que você peça comida via telefone ou internet, um dia você vai cometer alguma gafe com o entregador, pode ter certeza. E no fim do dia, a sensação vai ser a mesma. O pensamento do erro vai ficar voltando à sua cabeça, seu cérebro será consumido com a vergonha, seu estômago doerá e você se retorcerá ao lembrar da cena, a menos que você seja a reencarnação da tia Dora, se for assim, você com certeza fará questão de contar para toda a sua família e amigos, para que o fato fique gravado para a posteridade.

A gafe sempre estará ali, escondida a cada esquina, a cada passo que você der, só esperando para atacar e te jogar um balde de vergonha na cabeça. Não tem jeito e você não pode fugir. Então, levanta essa cabeça, meu filho! Gafe é sempre história pros netos. E tenho dito.

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Vô Chiquinho, Tia Dora e Vó Dila | Arquivo Pessoal

Ah, e se você for a reencarnação da tia Dora, me adiciona no Face.

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Lista: 66 países em que brasileiros não precisam de visto

Uma das melhores notícias quando se pensa em viajar! Brasileiros turistas não precisam de visto para esses países.
Mas lembre-se: se for morar ou fazer algum curso, precisa de visto sim! mas se for só dar uma passadinha, tá tudo lindo e fácil, fácil. Deu até vontade de alongar um pouquinho aquelas férias!
Lista: 66 países em que brasileiros não precisam de visto.

[Crônica] Retrato póstumo de um Lord Gato

E, hoje, um dos meus maiores amores se foi

Por Magdalena Bertola

Não passava de dez centímetros quando o vi. Branco, com manchinhas rajadas, só um olho aberto. A garganta potente rasgava os ouvidos com os berros de um recém-nascido.

Eu tinha doze anos quando eu e minha mãe o resgatamos em um terreno baldio, ao lado da casa da minha tia. Uma mamadeira, que chegava a ser maior que ele, foi fonte de seu sustento nos primeiros meses. Com a ajuda de nossa cadela vira-lata, Pitucha, e de nosso gato preto, Simba, ambos já um tanto velhos, ele foi criado.

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Schumy logo que foi resgatado (Fotos: Arquivo Pessoal)

Corria tanto, desajeitado, aprendendo a andar, que foi batizado de Schumacher, mas de alemão, só tinha o nome. Tinha uma cara de bravo, aliás, era o stress em pessoa, quer dizer, em gato.  Diremos que era o Grumpy Cat da vida real. Mas a verdade é que ele parecia mesmo um Lord britânico. O jeito meio superior, com cara de poucos amigos, me fazia imaginá-lo vestido com um belo sobretudo, cartola e monóculo, andando com uma bengala polida que, apesar de  não precisar, usava só pelo estilo. É, o gordinho faz a imaginação voar longe. Só quem o conheceu sabe, só quem o conheceu consegue entender.

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Em sentido horário: Pitucha sendo mãe postiça; Schumy com seus dez centímetros; Eu (Magdalena) desenhando e Schumy dormindo; Simba e Schumy logo que foi resgatado. Fotos: Arquivo pessoal

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Hoje, nesse cinco de dezembro acinzentado, garoento, um dia britânico, meu Schuminho deu adeus ao mundo. Deve ter ido ao plano superior de carruagem e, acho, que quem o recebeu foi minha bisavó Candinha. Há uns cem anos, ela também tinha dessas de dar mamadeira pra bicho.

Os cinco dias de internação não nos deu chance de nos despedirmos, mas foi a única maneira que encontramos de tentar reverter a doença hepática que acometia sua vitalidade. Mas não deu, o pançudo decidiu ir, cansou. Ele teve seu tempo, teve muito amor em seus treze anos de encarnado, e pensar que ele esteve comigo por mais da metade da minha vida! É, isso que dói. Perguntei a minha mãe como iríamos viver sem ter o obesinho, não obtive respostas.

Hoje chorei o que não chorava há tempos.

Mas quando cobri seu corpinho de quatro quilos – bem mais magro do que era quando recebeu seu apelido -, senti como se, finalmente, o tivéssemos trazido de volta para casa. Pela última vez, para se despedir, o obesinho veio até aqui.IMG-20141208-WA0015

O enterramos ao pé de uma árvore.

Se foi tranquilo e deixou saudades. Foi calmo e deixou memórias, todas boas. Se foi, mas não foi, estará sempre aqui, no coração, deixando o peito quentinho e os olhos mareados.

Hoje a casa ficou mais cinza, mas no céu surgiu um raio de sol por entre as nuvens carregadas.

E com a garganta embargada dizemos: nós te amamos, Schumy.

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Brás: antes Itália, agora La Paz

O antigo bairro já foi considerado um dos mais europeus de São Paulo, onde os moradores antigos lembram com saudosismo do passado

Por Magdalena Bertola

O Brás é um bairro operário situado no início da zona leste da Capital paulista, sendo próximo, também, do centro. Segundo o livro “Brás, Pinheiros, Jardins – Três bairros, três mundos”, de Ebe Reale, o início do bairro data da metade do século XVIII e é ligado à Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, que foi erguida pelo português José Brás e, por isso, o bairro foi assim batizado.

Já o autor Paulo Cursino de Moura afirmou que a região tem esse nome por conta de Brazílio de Aguiar Castro, filho da Marquesa de Santos, Domitila de Castro e Canto Melo, que herdou da mãe as terras da Chácara do Ferrão.

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A arquitetura do Brás nos remete há uma época antiga mas, infelizmente, decadente (foto: Magdalena Bertola)

No século XIX houve a urbanização e também a industrialização de São Paulo com a cultura do café. No ano de 1867 a estação do Brás foi inaugurada, sendo o ponto de partida de diversas indústrias e do pequeno comércio do local, além de ter moradias e terrenos baratos, o que contribuiu para que os trabalhadores recém-chegados na cidade se instalassem ali. Nessa época, foi inaugurada a Hospedaria dos Imigrantes no Brás, substituindo a antiga que havia no Bom Retiro, recebendo os primeiros “clientes” no final da década de 1880.

No início do século XX, o bairro já era referência da comunidade italiana, com as festas de Nossa Senhora de Casaluce e São Vito. Além da comunidade italiana, o bairro também era referência da comunidade grega, armênia e portuguesa.

“Mas já nos anos 50 começou a migração de nordestinos para o bairro”, conta Alfredo José Rente, morador do Brás há 62 anos, sobre a migração de trabalhadores vindos do norte e nordeste do país. O síndico de um edifício localizado próximo à padaria Nova Garoto, veio de Portugal aos 18 anos e se considera um brasileiro “sou mais brasileiro do que vocês [brasileiros], pois eu escolhi ser”, brinca o senhor de 80 anos, conhecedor de personalidades como Vanderleia, Reginaldo Rossi e Francisco Cuoco da época em que possuía uma papelaria e loja de discos no bairro.

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Padaria Nova Garoto – no Brás desde 1944 (foto: Magdalena Bertola)

“Hoje em dia, vivo em La Paz”, brinca novamente Seu Francisco, sobre a atual população boliviana do bairro. “O Brás envelheceu. Antes haviam as porteiras do Brás, onde os trens passavam. Também havia o “flute”, que era quando as moças vinham passear aqui e conhecer possíveis namorados”, conta o antigo morador. Uma das suas críticas é sobre o fato de o bairro não ter continuado com antigas características tradicionais, como os bondes, “Na Europa ainda é possível andar de bonde. Atrapalha o trânsito, mas acredito que deveria ter sido preservado, assim como os prédios. Esse prédio aqui foi de classe alta por muito tempo, os apartamentos são grandes e bons”, afirma.

A esposa de Seu Alfredo, Maria Apparecida, “com dois Ps, porque é antigo”, afirma que hoje só mora no Brás quem realmente ama, “Hoje vemos pessoas esfaqueando as outras nas ruas. O nosso Brás, infelizmente, ficou feio, não tem mais aquela família, aquela coisa gostosa”, diz. “Quando era criança, eu morava no Belém, mas passeava muito por aqui, lembro do antigo teatro, onde diversos cantores se apresentavam, e dos carnavais de rua”, relembra, “Aqui era um lugar bom, tinha famílias distintas. É uma pena que o Brás acabou”, completa a senhora de 75 anos.

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Seu Alfredo e Dona Maria Apparecida – mais de seis décadas no Brás deram ao casal a possibilidade de ver a ascensão e queda do bairro (Foto – Magdalena Bertola)

Mas algumas pequenas tradições ainda se mantém no bairro, como a já mencionada celebração da Nossa Senhora de Casaluce, festa italiana com danças típicas e fartura de alimentos tradicionais preparados por voluntários e que são servidos em para uma média de 30.000 pessoas nas cerca de 30 barracas espalhadas pela Rua Caetano Pinto, onde a maioria dos italianos provenientes de Nápole se instalaram.

Todo o dinheiro arrecadado na festa é revertido para trabalho com pessoas carentes e reformas na paróquia. Segundo o site da própria Casaluce (http://www.casaluce.com.br), a celebração foi a primeira de origem italiana de São Paulo, já que ocorre desde 1900, todo mês de maio.

Outra festa tradicionalmente italiana que acontece no Brás é a da Associação Beneficiente São Vito Mártir, fundada no ano de 1919, em homenagem ao padroeiro da cidade de Polignano a Mare, na Itália. As comidas típicas também são preparadas por voluntários, assim como na festa de Casaluce, e a renda da celebração é revertida na manutenção da creche São Vito, que ajuda cerca de 115 crianças de um a quatro anos.

A celebração acontece anualmente no fim do mês de Maio até o início de Julho, na Rua Fernandes Silva, 96, e na Rua Polignano a Mare, número 225.

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Velhos olhos jovens

*crônica publicada no site Tradições Paulistanas

 

Magdalena Bertola

Noventa e dois anos e muita disposição. Mesmo com a idade, Floripes Palante, viúva do antigo craque do Palmeiras, Osvaldo Palante, não se faz de rogada a dar umas belas passeadas pela moderna São Paulo. Munida de sua bolsa, sai de sua casa, em uma vila no bairro da Pompéia, e pega ônibus para passear pela cidade.

-Tenho noventa e dois, mas estou bem, né? – pergunta, afirmando.
É incrível como vemos, atualmente, os jovens tão preguiçosos, tão cheios de cansaços e stresses, e então, uma senhora de tanta idade mostra que não importa se seu RG é antigo ou não, basta que sua alma ainda seja jovem. Lembra-se com muito orgulho e felicidade da época em que conheceu o jogador, que foi seu marido por tantos anos. Ela trabalhava em uma empresa japonesa nos anos 40, onde ele foi empregado nos dias em que não tinha treino. Lá, ela era a única mulher, no meio de tantos homens e numa sociedade arcaicamente machista, “Ele foi o único que eu aceitei tomar um sorvete”, diz rindo. É, quando o amor bate na porta, não podemos pestanejar. Pestanejar como as grandes pestanas do marido de olhos verdes, que ela tanto fala da beleza e porte imponente. É como voltar no tempo com sua conversa, suas histórias sobre os bailes e como, naquela época, tudo era mais respeitoso. Nem encostar rosto no rosto podia nos bailes, já que havia uma espécie de segurança que sempre tirava a felicidade, uma felicidade tão banal atualmente como encostar o rosto, daqueles jovens casais.

Em sentido horário: Floripes com as premiações do marido, Osvaldo Palante(foto: Magdalena Bertola); O casal na lua de mel; Recorte de jornal de 1944 com Floripes na torcida (Fotos: arquivo pessoal família Palante.

Em sentido horário: Floripes com as premiações do marido, Osvaldo Palante(foto: Magdalena Bertola); O casal na lua de mel; Recorte de jornal de 1944 com Floripes na torcida (Fotos: arquivo pessoal família Palante).

O brilho do olhar sempre se acende um pouco mais quando o filho traz as antigas fotografias e recortes de jornal com o pai. Na pequena sala, há um hack com diversas premiações e homenagens ao veterano, que ela mostra com muito orgulho. Já faz catorze anos que seu amor se foi dessa para melhor, e ela diz que ainda é difícil, a vida segue, mas o amor continua. Nem quando foi cantada por outro veterano do Palestra, Ipe, como é chamada pela família e amigos, cedeu. Diz ela que era capaz que Palante voltasse do além para ter uma crise de ciúmes. E nisso ela acredita, com sua fé espírita. E assim segue a vida, lembrando do amor, dos jogos, da beleza de ter sido uma “maria chuteira das antigas”, na época em que os jogadores ganhavam pouco, e não milhares e milhares. As fotos dos jornais e dos encontros de jogadores veteranos são sempre sorrindo, com o olhar aceso e é possível ouvir o riso só de ver as imagens.

A cidade, naquela época, não era tão grande. Andava-se de bonde, as mulheres eram tiradas para dançar tango nos bailes por homens que as desejavam cortejar e até casar. Os garotos costumavam tentar ver os joelhos das moças, tão diferente de hoje em dia em que joelhos são algo completamente banal. “Hoje já se vai direto aos finalmentes”, diz com uma crítica bem humorada, já que naquela época, tudo era mais complicado e, ao mesmo tempo, simples.

Pessoas como essa senhora, que tanto já passou na vida, que tem uma vivência tão antiga na selva de pedra, conseguem trazer uma nostalgia fictícia, já que muitos de nós não vivemos naquela época. É possível sentir a felicidade tão simples pelas palavras ditas sobre o que era antigamente. Apesar de não haver saudosismo da parte dela, existe uma saudade meio velada. E essa saudade surge no coração até de jovens ao ouvir suas histórias.

E é dessa maneira que a nossa cidade cresce, se modifica, muda sua arquitetura, costumes, sotaques. Mas ainda existe, no coração de antigos moradores dessa grande cidade, aquela vida simples, aquela cidade com menos transito, as roupas finas e elegantes que até os mais pobres vestiam. E posso dizer, dá saudade de uma São Paulo que eu nem cheguei perto de conhecer.

 

 

 

 

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Resgate da infância

Magdalena Bertola

 

Essa onda dos álbuns de figurinhas da Copa me pareceu muito ridícula, a princípio. Não conseguia entender como homens e mulheres de mais de 20 anos podiam gastar tanto em fotos minimizadas de jogadores de futebol. Para mim, parecia infantil demais, falta do que fazer, babaquice mesmo. Porém, semana passada, meu irmão Marcelo, de 37 anos, casado e pai de dois meninos, comentou sobre o álbum que estava completando junto com Enzo, seu filho mais velho. Ele disse até que existe um aplicativo de smartphone para “gerenciar figurinhas”. Aquilo soou estúpido para mim, obviamente, mas não comentei nada, afinal, cada um faz o que quer, não é?

Marcelo e seu filho Enzo, completando o álbum da Copa 2014 - Foto: Magdalena Bertola

Marcelo e seu filho Enzo, completando o álbum da Copa 2014 – Foto: Magdalena Bertola

Só que uns dias depois, quando cheguei na casa dele, o vi sentado na mesa da cozinha, ao lado do meu sobrinho, de seis anos, completando o álbum. Naquele momento, entendi tudo. Meu irmão mais velho, homem feito, gerente de banco e etc, voltava a ser criança quando comprava as figurinhas, quando as mostrava ao filho, quando sentava com ele para colar as novas aquisições. A ideia não é ser infantil, mas ser criança novamente, mesmo que por alguns momentos.

E a beleza da vida não é exatamente isso? Não se deixar envelhecer, por mais que as rugas vinquem a face, que o peso dos anos curve a coluna e dificulte o andar, as pessoas mais felizes, e por que não, mais belas, são aquelas com aquele sorriso de criança marota na face, que levam boa parte da vida na brincadeira. Não que a não levem a sério, mas que não se estressam da maneira que nós, jovens adultos da atualidade, fazemos por coisas tão ínfimas.

A geração atual é velha, muito velha, chata e perdida na própria amargura. Não existe dia em que não nos estressamos, seja no trânsito, na faculdade, no trabalho e até em casa, quando deveríamos, supostamente, relaxar. Então nesses momentos em que os jovens adultos, e até aqueles que já estão deixando de ser assim, tão jovens, segundo o senso comum, passam a fazer algo que não está implicitamente ligado às suas idades e às suas realidades, achamos estranho, besta. Mas é isso que faz tudo bonito, poder rolar no chão com o cachorro, descer uma ladeira em cima de um papelão, sujar o rosto com um sorvete e até colecionar figurinhas. Por mais imbecil que pareça, é legal, é bonito e necessário. Não que haja a necessidade de todos colecionarem figurinhas, mas necessitamos largar um pouco a rabugice precoce e voltarmos à felicidade simples e leve de ser criança.

E é assim que na lembrança sempre voltam brincadeiras, o sol que passava por entre as folhas das árvores, os joelhos ralados e os tênis sujos de barro. Para a maioria de nós, essas são as mais belas lembranças e, com certeza, algumas delas voltarão à nossa mente até no momento do nosso último suspiro. Esse <em>deja-vu</em> para a vida leve e simples da infância é tão pequeno e básico que esquecemos dele. Esquecemos como podemos ser felizes somente por dar uma risada gostosa de alguma coisa que há muito tempo não víamos graça, porque a sociedade e a tão dita maturidade nos tirou a essência da juventude eterna.

Volte a ser criança, jovem velho, deixe de rabugice e aprecie a beleza da alma infantil, que, acredite, ainda está ai, enterrada em algum lugar do seu coraçãozinho peludo.

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