Gafe

Quando alguém acena na sua direção na rua, e você acena de volta, e ai percebe que não era pra você, sua vontade é de abrir um buraco no chão e se jogar dentro, ou simplesmente evaporar no ar feito fumaça. Mas não, não dá, meu querido. Sua cara de vergonha e sua tentativa desesperada de fugir da situação só deixa tudo mais engraçado para os espectadores, que sempre estão de plantão, olhando para sua face, enrugada de vergonha nessas horas. Ah, a gafe! Erros idiotas que cometemos sem a mínima noção e intenção. Uma palavra, um gesto, até um olhar pode ser a lápide que irá sepultar sua reputação, mesmo que seja só na sua cabeça.

A rainha das gafes que eu conheci na minha vida foi minha querida tia-avó, a Tia Dora. Ela, do contrário da grande maioria da população mundial, não fazia nenhuma questão de esquecer suas gafes. Na verdade, ela contava para todo mundo, e sempre gargalhava, lembrando de suas proezas.

Umas das memórias mais nítidas que tenho dela é de quando eu tinha cerca de oito anos. Naquela época, sempre visitávamos minhas tias-avós (por conta de todas terem mais de 90, eu carinhosamente as apelidei de irmãs Destino, ou Moiras, aquelas irmãs da mitologia que tecem o fio da vida) para tomar café da tarde. Nesse dia, estávamos na sala e ela resolveu contar uma de suas gafes, acontecida na juventude, lá pela década de 40.

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A então jovem Dorothy, moça muito bonita, pobre, mas trabalhadora e sempre muito arrumada, continuava usando as meias finas, mesmo quando elas já estavam furadas, por conta de o dinheiro ser curto. As meias só iam para o lixo quando elas já estivessem pedindo arrego de suas funções. Um belo dia, ela se arrumava para ir ao baile e teve que vestir uma que estava desfiada, mas para que o desfiado não aparecesse, ela deixou a ponta da meia, aquela que vai nos dedos, solta, e não justa no pé, colocando embaixo da sola, e calçando o sapato. E lá se foi para o baile. Chegando lá, um moço a tirou para dançar. Passo vai, passo vem, o moço então a girou, jogando ela para baixo e fazendo com que ela erguesse uma das pernas, no melhor estilo tango. Seria tudo lindo, e normal, não fosse o fato de que o sapato voou do pé da tia Dora, indo parar do outro lado do salão, e deixando aquela língua de meia pendendo da ponta do pé, ainda no alto, sendo visível para todo o baile, enquanto balançava num ritmo que não batia com o da música.

Pois é, e se tentamos consertar, tudo piora. E sempre piora! E não adianta fugir, se esconder dentro da bolha da sua casa, embaixo do seu cobertor, com medo do monstro da gafe. Não tem jeito, nem que você peça comida via telefone ou internet, um dia você vai cometer alguma gafe com o entregador, pode ter certeza. E no fim do dia, a sensação vai ser a mesma. O pensamento do erro vai ficar voltando à sua cabeça, seu cérebro será consumido com a vergonha, seu estômago doerá e você se retorcerá ao lembrar da cena, a menos que você seja a reencarnação da tia Dora, se for assim, você com certeza fará questão de contar para toda a sua família e amigos, para que o fato fique gravado para a posteridade.

A gafe sempre estará ali, escondida a cada esquina, a cada passo que você der, só esperando para atacar e te jogar um balde de vergonha na cabeça. Não tem jeito e você não pode fugir. Então, levanta essa cabeça, meu filho! Gafe é sempre história pros netos. E tenho dito.

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Vô Chiquinho, Tia Dora e Vó Dila | Arquivo Pessoal

Ah, e se você for a reencarnação da tia Dora, me adiciona no Face.

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[Crônica] Retrato póstumo de um Lord Gato

E, hoje, um dos meus maiores amores se foi

Por Magdalena Bertola

Não passava de dez centímetros quando o vi. Branco, com manchinhas rajadas, só um olho aberto. A garganta potente rasgava os ouvidos com os berros de um recém-nascido.

Eu tinha doze anos quando eu e minha mãe o resgatamos em um terreno baldio, ao lado da casa da minha tia. Uma mamadeira, que chegava a ser maior que ele, foi fonte de seu sustento nos primeiros meses. Com a ajuda de nossa cadela vira-lata, Pitucha, e de nosso gato preto, Simba, ambos já um tanto velhos, ele foi criado.

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Schumy logo que foi resgatado (Fotos: Arquivo Pessoal)

Corria tanto, desajeitado, aprendendo a andar, que foi batizado de Schumacher, mas de alemão, só tinha o nome. Tinha uma cara de bravo, aliás, era o stress em pessoa, quer dizer, em gato.  Diremos que era o Grumpy Cat da vida real. Mas a verdade é que ele parecia mesmo um Lord britânico. O jeito meio superior, com cara de poucos amigos, me fazia imaginá-lo vestido com um belo sobretudo, cartola e monóculo, andando com uma bengala polida que, apesar de  não precisar, usava só pelo estilo. É, o gordinho faz a imaginação voar longe. Só quem o conheceu sabe, só quem o conheceu consegue entender.

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Em sentido horário: Pitucha sendo mãe postiça; Schumy com seus dez centímetros; Eu (Magdalena) desenhando e Schumy dormindo; Simba e Schumy logo que foi resgatado. Fotos: Arquivo pessoal

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Hoje, nesse cinco de dezembro acinzentado, garoento, um dia britânico, meu Schuminho deu adeus ao mundo. Deve ter ido ao plano superior de carruagem e, acho, que quem o recebeu foi minha bisavó Candinha. Há uns cem anos, ela também tinha dessas de dar mamadeira pra bicho.

Os cinco dias de internação não nos deu chance de nos despedirmos, mas foi a única maneira que encontramos de tentar reverter a doença hepática que acometia sua vitalidade. Mas não deu, o pançudo decidiu ir, cansou. Ele teve seu tempo, teve muito amor em seus treze anos de encarnado, e pensar que ele esteve comigo por mais da metade da minha vida! É, isso que dói. Perguntei a minha mãe como iríamos viver sem ter o obesinho, não obtive respostas.

Hoje chorei o que não chorava há tempos.

Mas quando cobri seu corpinho de quatro quilos – bem mais magro do que era quando recebeu seu apelido -, senti como se, finalmente, o tivéssemos trazido de volta para casa. Pela última vez, para se despedir, o obesinho veio até aqui.IMG-20141208-WA0015

O enterramos ao pé de uma árvore.

Se foi tranquilo e deixou saudades. Foi calmo e deixou memórias, todas boas. Se foi, mas não foi, estará sempre aqui, no coração, deixando o peito quentinho e os olhos mareados.

Hoje a casa ficou mais cinza, mas no céu surgiu um raio de sol por entre as nuvens carregadas.

E com a garganta embargada dizemos: nós te amamos, Schumy.

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Velhos olhos jovens

*crônica publicada no site Tradições Paulistanas

 

Magdalena Bertola

Noventa e dois anos e muita disposição. Mesmo com a idade, Floripes Palante, viúva do antigo craque do Palmeiras, Osvaldo Palante, não se faz de rogada a dar umas belas passeadas pela moderna São Paulo. Munida de sua bolsa, sai de sua casa, em uma vila no bairro da Pompéia, e pega ônibus para passear pela cidade.

-Tenho noventa e dois, mas estou bem, né? – pergunta, afirmando.
É incrível como vemos, atualmente, os jovens tão preguiçosos, tão cheios de cansaços e stresses, e então, uma senhora de tanta idade mostra que não importa se seu RG é antigo ou não, basta que sua alma ainda seja jovem. Lembra-se com muito orgulho e felicidade da época em que conheceu o jogador, que foi seu marido por tantos anos. Ela trabalhava em uma empresa japonesa nos anos 40, onde ele foi empregado nos dias em que não tinha treino. Lá, ela era a única mulher, no meio de tantos homens e numa sociedade arcaicamente machista, “Ele foi o único que eu aceitei tomar um sorvete”, diz rindo. É, quando o amor bate na porta, não podemos pestanejar. Pestanejar como as grandes pestanas do marido de olhos verdes, que ela tanto fala da beleza e porte imponente. É como voltar no tempo com sua conversa, suas histórias sobre os bailes e como, naquela época, tudo era mais respeitoso. Nem encostar rosto no rosto podia nos bailes, já que havia uma espécie de segurança que sempre tirava a felicidade, uma felicidade tão banal atualmente como encostar o rosto, daqueles jovens casais.

Em sentido horário: Floripes com as premiações do marido, Osvaldo Palante(foto: Magdalena Bertola); O casal na lua de mel; Recorte de jornal de 1944 com Floripes na torcida (Fotos: arquivo pessoal família Palante.

Em sentido horário: Floripes com as premiações do marido, Osvaldo Palante(foto: Magdalena Bertola); O casal na lua de mel; Recorte de jornal de 1944 com Floripes na torcida (Fotos: arquivo pessoal família Palante).

O brilho do olhar sempre se acende um pouco mais quando o filho traz as antigas fotografias e recortes de jornal com o pai. Na pequena sala, há um hack com diversas premiações e homenagens ao veterano, que ela mostra com muito orgulho. Já faz catorze anos que seu amor se foi dessa para melhor, e ela diz que ainda é difícil, a vida segue, mas o amor continua. Nem quando foi cantada por outro veterano do Palestra, Ipe, como é chamada pela família e amigos, cedeu. Diz ela que era capaz que Palante voltasse do além para ter uma crise de ciúmes. E nisso ela acredita, com sua fé espírita. E assim segue a vida, lembrando do amor, dos jogos, da beleza de ter sido uma “maria chuteira das antigas”, na época em que os jogadores ganhavam pouco, e não milhares e milhares. As fotos dos jornais e dos encontros de jogadores veteranos são sempre sorrindo, com o olhar aceso e é possível ouvir o riso só de ver as imagens.

A cidade, naquela época, não era tão grande. Andava-se de bonde, as mulheres eram tiradas para dançar tango nos bailes por homens que as desejavam cortejar e até casar. Os garotos costumavam tentar ver os joelhos das moças, tão diferente de hoje em dia em que joelhos são algo completamente banal. “Hoje já se vai direto aos finalmentes”, diz com uma crítica bem humorada, já que naquela época, tudo era mais complicado e, ao mesmo tempo, simples.

Pessoas como essa senhora, que tanto já passou na vida, que tem uma vivência tão antiga na selva de pedra, conseguem trazer uma nostalgia fictícia, já que muitos de nós não vivemos naquela época. É possível sentir a felicidade tão simples pelas palavras ditas sobre o que era antigamente. Apesar de não haver saudosismo da parte dela, existe uma saudade meio velada. E essa saudade surge no coração até de jovens ao ouvir suas histórias.

E é dessa maneira que a nossa cidade cresce, se modifica, muda sua arquitetura, costumes, sotaques. Mas ainda existe, no coração de antigos moradores dessa grande cidade, aquela vida simples, aquela cidade com menos transito, as roupas finas e elegantes que até os mais pobres vestiam. E posso dizer, dá saudade de uma São Paulo que eu nem cheguei perto de conhecer.

 

 

 

 

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O casal do Brás

*Crônica publicada no site Tradições Paulistanas

Magdalena Bertola

O sotaque português é fraco, mas presente. Por trás do boné e dos óculos, um par de olhos azuis brilha ao falar daquele antigo bairro, onde mora há 62 anos. Alfredo José Rente saiu do velho país europeu aos 19 anos, hoje, com 80, ainda fala com saudosismo do flute, das porteiras, da sua antiga tabacaria e papelaria. O Brás, onde ainda mora, é parte de seu coração.

Como ele mesmo diz, é mais brasileiro do que eu. Por que? Porque ele escolheu. Decidiu ser brasileiro, ficar aqui, ser parte desse povo grande e feliz. Junto com sua mulher, Maria Apparecida, são entusiastas do bairro. Com olhos meio marejados, Maria se queixa da crescente violência, do enfeiamento dali. Ela, que desde criança frequentava o antigo bairro europeu, na época que morava no Belém, diz que ali só fica quem realmente ama o lugar.

O casal é uma porta de entrada para o passado paulistano. Suas histórias e lembranças falam de uma época esquecida, onde ali se instalavam pessoas de classe alta, personalidades da música e do teatro. Maria lembra dos carnavais de rua, e a saudade é forte na voz e olhar, que se perde um pouco no meio da lembrança.
Passar duas horas em conversas com o casal sobre o passado e presente do bairro faz qualquer um entrar no seu mundo. Num apartamento antigo, é possível ver fotos, ouvir suas histórias… me senti tão aconchegada como parte da família. No salão de festas, fui levada aos anos 50, vi pessoas dançando, vestidas finamente, mulheres com cabelos e maquiagem perfeitas, homens arrumados com muito esmero. Entrei na realidade daquele casal, entendi o que diziam, me senti feliz e, ao mesmo tempo, triste.

É incrível como os antigos, quando abordados para falarem de algo que gostam, abrem o coração para alguma jovem estudante, meio perdida ali, no meio do comércio ambulante. Comércio ambulante que cresce cada dia mais. Seu Alfredo diz que hoje já mora em La Paz, já que a maioria da população do bairro é de origem boliviana. Não que se queixe quanto à nacionalidade dos moradores, o que dói no coração do senhor e até no meu, depois de ouvir seus relatos, é o crescente descaso com o local.

Dá saudades do Brás, mesmo sem tê-lo conhecido, dá tristeza de ver no que se transformou. Quando se conversa com algum entusiasta de algo, que consegue te levar ao passado, é difícil não se emocionar. Vejo que eles, apesar de viverem em 2014, juntos, ainda vivem antigamente. Juntos estão sempre na época de ouro do bairro, juntos vivem e revivem aquilo que tanto amaram e os fez feliz.

Posso dizer, então, que essa foi uma das maiores histórias de amor que já presenciei. E somente a saudade e a lembrança, ainda mantém vivo aquele lugar.

 

 

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Alfredo e Maria Apparecida Rente em seu apartamento, no Brás (SP)

Fotos: (antiga)Arquivo pessoal do casal, reprodução Magdalena Bertola; (atual) Magdalena Bertola

obs: Sim, sou eu fotografando a foto, lol

 

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O coração da metrópole

Magdalena Bertola

Avenida Paulista (Foto: Magdalena Bertola)

Avenida Paulista (Foto: Magdalena Bertola)

O céu cinza se funde com as paredes de concreto. Rabiscadas por pichações em preto, contrastam com as cores dos grafites, parcialmente colorindo a tão conhecida cidade da garoa.

Tantos dizem sobre sair desse caos, deixar a poluição e a violência que a antiga Província de São Paulo, hoje uma metrópole, trouxe com o progresso.Mas a verdade é que, no fundo, talvez bem no fundo, o coração bata mais forte por essa grande selva de pedra.

São Paulo é uma jóia no Brasil, mesmo com os ônibus lotados, os alugueis caros, engloba tudo e todos. Seja na segunda, seja na sexta, sábado ou domingo. Não importa se sua fome é de sushi ou acarajé, lasagna a bolognesa ou vegetariana, se seu esqueleto balança ao som de funk ou de rock. Se você é do Capão ou dos Jardins, ou se sua diversão fica na Augusta ou em Moema, São Paulo é assim, tão coração de mãe, que qualquer um aqui acha seu canto, seu espaço, seu grito na multidão.

Seja branco, seja negro, oriental, ou mesmo tudo isso, e mais um pouco, junto, São Paulo é o espaço de tantos olhares, de tantos gestos, sotaques e culturas. Nossa cidade é tão plural, tão igual nas diferenças, que, no fim, qualquer um pode chamar a grande metrópole de lar.

Sem São Paulo O meu dono é a solidão 

Diga sim, que eu digo não

Inocentes, ‘São Paulo’

Bairro do Brás (2014)

Bairro do Brás (2014) – foto: Magdalena Bertola

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