A fuga da dor no desespero da loucura

Resenha Crítica do conto Bertram, in Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo

Magdalena Bertola

 

Manuel Antônio Álvares de Azevedo, mais conhecido como Álvares de Azevedo, foi um poeta, escritor e contista romântico brasileiro. Foi estudante de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo. Mas a morte chegou para si como para boa parte dos personagens de sua obra, cedo e com muito sofrimento: morreu no ano de 1852, de tuberculose, antes de completar 21 anos de idade.

Foi considerado como o mais inquieto dos poetas ultrarromânticos do Brasil, sendo conhecido como “o poeta da dúvida”. Sua obra deixou os temas nacionalistas e indianistas da primeira fase do romantismo e partiu para o lado interior e negro de sua humanidade. Sua obra é influenciada por Lorde Byron e Goethe, tendo como tema o amor infeliz, o sonho, a morbidez e a morte. A mulher de seus contos é, ora um anjo, ora uma femme fatale. O amor pode passar por um período bom e sonhador, mas o fim é certo, e sempre terrível.

Em Noite na Taverna, ambientado, obviamente, em uma taverna escura, numa noite de chuva, um grupo de amigos boêmios, já bêbados de tanto vinho, contam histórias macabras de amores proibidos, assassinatos, necrofilia, antropofagia e traições. Todas as personagens são velhos, já desgastados pelo tempo e pelos vícios, parecendo, muitas vezes, delirarem por conta de seus cérebros já envenenados, beirando à loucura do fim de uma vida desregrada. Porém, ao mesmo tempo, para-se para imaginar se tanto vício não seria, então, resultado do remorso, da dor e da tentativa de esquecimento de tantas maldições passadas na juventude. A maneira como Álvares escreveu seus contos, entrecortados por xingamentos à taverneira que não enche os copos de vinho, nos transporta para algum antigo bar, com paredes de pedra e mesas de madeira maciça, iluminadas por poucas velas, com o cheiro do álcool e de corpos sem banho, a ver olhos brilhosos fitarem o invisível enquanto relembram suas maldições de juventude.

Foto: Magdalena Bertola

Foto: Magdalena Bertola

O conto que aqui descrevo é o terceiro do livro, chama-se Bertram, o nome da personagem principal dessa história. Um senhor ruivo, barbudo e de olhos verdes, já ébrio e, segundo o narrador, uma “daquelas criaturas fleumáticas que não hesitarão ao tropeçar num cadáver para ter mão de um fim”.

A história que Bertram descreve começa em Cádiz, na Espanha, quando descreve sua amada, Ângela, morena, com mãos de alabastro e lábios de rosa d’Alexandria. Foi sua paixão e a viveu a ponto de querer casar com a jovem, até que fora obrigado a deixar o país para visitar seu pai moribundo, na Dinamarca. A personagem narra o momento da morte de seu pai e diz que chorou, mas foi por saudades da amada.

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Foto: Magdalena Bertola

Dois anos se passaram até que o então jovem voltasse à Espanha. Chegando ao país mediterrâneo, descobriu sua amada casada e com um filho. Ainda assim, o amor de ambos não acabara, e ali começava sua história de desgraça. O amor era consumado noite após noite, no meio das madressilvas e folhas de um jardim, somente com a noite de cumplice, iluminada pela pálida luz da lua. A traição para com o marido de Ângela começara e ela logo matou a ele e ao filho para que pudesse, então, fugir e viver aquele amor proibido. A cena se dá quando ela chama Bertram para dar-lhe um presente: os dois cadáveres lavados em sangue que jaziam no quarto.

Viveram em orgias e em tavernas, até que Ângela o deixou. Ele quis esquece-la no jogo, na bebida e nos duelos, até que um dia, bêbado, foi pisoteado pelos cavalos de uma carruagem enquanto estava caído as portas de um castelo, de onde o socorreram. Bertram não perdera tempo, e tão logo se recuperara, fugiu com a filha do velho dono do palácio, que o havia socorrido. Apesar disso, aquela atração não o prendeu, e logo que perdeu alguns jogos de carta, apostou a moça, deixando-a ser levada por um pirata.

Após tanta desgraça em sua vida, o jovem Bertram decide se matar um dia, na Itália, jogando-se ao mar, talvez em uma tentativa de esquecer o amor perdido de Ângela, talvez por uma breve loucura de bêbado. Acabou por ser socorrido por um navio e logo se viu traindo o comandante com sua própria esposa. Noites se foram enquanto ele e a moça sucumbiam aos prazeres proibidos de uma traição a bordo, correndo o risco de serem pegos até que o navio encalhou. Os sobreviventes foram apenas Bertram, sua amante/esposa do Comandante, o próprio Comandante e dois marinheiros, que morreram logo, deixando apenas o triangulo amoroso. Então a antropofagia e a loucura se misturam, revelando o aspecto mais cru do ser humano, capaz de tudo para sobreviver.

Talvez todas as mulheres e todas as traições tenham sido uma maneira de o protagonista buscar reviver o que passara com Ângela, seu único amor, e que jamais encontrara. Todas as loucuras que o homem pode cometer não são nada quando comparados ao amor perdido e o coração partido. A figura fleumática de Bertram tenta, ao máximo, ser impassível e frio, talvez o seja por já ter a vida calejada de desgraças, porém ao mesmo tempo, parece não ser tão impassível, parece sofrer por dentro e por esse motivo, mata-se aos poucos enquanto se joga ao vício, não tendo o que perder na vida, pois tudo o que teve, já não tem mais.

 

“Olá, taverneira, bastarda de Satã! Não vês que tenho sede e as garrafas estão secas como tua face e como nossas gargantas?”

Álvares de Azevedo, Noite na Taverna

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