O caos e o som da esperança

Magdalena Bertola

 

Colagem: Magdalena Bertola

Colagem: Magdalena Bertola

Recentemente, com a crise entre Rússia e Ucrânia, todos os olhares se voltaram para o leste europeu. A decisão de Yanukovich de negar o acordo com a União Européia que era discutido há três anos e sua aproximação da Rússia desencadearam violentos protestos em Kiev, capital ucraniana, que pioraram quando o governo decidiu por adotar leis afim de parar os manifestantes. Isso acabou por gerar mortes: um hotel na capital virou, além de hospital, necrotério para manifestantes mortos por atiradores de elite.
Na parte oeste do país, mais ligada à Europa, existe a maioria pró-UE, que pretende largar as amarras da Rússia, e do lado leste, com a maioria da população de origem russa, predomina a vontade de anexação. De ambos os lados, existem os nacionalistas extremistas, que preferem uma Ucrânia livre de qualquer interferência, seja russa, seja da União Européia.

A anexação da Criméia foi feita quando um acordo foi assinado por Vladimir Putin, presidente russo, e líderes da Criméia, após o povo da região aprovar a reunificação com a Rússia e a consequente separação da Ucrânia. Como dito no site do G1, o Kremlin afirmou que a República da Criméia se considera parte da Federação Russa a partir do momento em que assinou o acordo, considerado ilegítimo por Kiev e pelos Estados Unidos.
Enquanto a disputa continua, manifestantes tocaram piano na Praça da Independência, na capital, ao mesmo tempo em que, do outro lado da rua, os policiais anti-distúrbio tocavam música pop da Rússia em aparelhos de som. Segundo o site da revista Exame, o promotor da iniciativa, Markian Marsekh, declarou que o piano se tornou símbolo da revolução e da resistência pacífica, uma vez que, com as divergências no país, o povo deve se unir em torno de valores como a arte.
Em um vídeo veiculado no Youtube, um manifestante extremista toca Nuvole Bianche, de Ludovico Einaudi, quando é flagrado por uma câmera amadora na rua Grushevskogo, também em Kiev, e outras canções. Nesse vídeo, deparei-me com dois comentários de usuários da rede que me fizeram refletir: “WHYNOTMEB4U” disse “existe esperança após a guerra…sempre”, e “Anna L.”, que comentou, via Google+, que “Até a revolução pode ter um som belo; oh arte, o que você pode fazer?!”.

Sendo assim, se no meio do caos, da violência, entre disputas por territórios, anexações ou liberdade sem interferências, após tantas mortes e com a dúvida do fim próximo ou não dos conflitos, pergunto, usando as palavras de Anna, o que a arte pode fazer? Como, no meio de tanto terror, as pessoas ainda buscam por um tipo entretenimento –não tão- simples e básico como a música? Ou essas notas deixam de ser diversão e passam a ser uma maneira de as pessoas naturalmente buscar refúgio em meio ao horror? Mesmo acuadas, assustadas, revoltadas, as pessoas acabam por encontrar o conforto com uma conversa, com o amor de um animal, com uma flor que brota do meio de escombros e até com música. Como saber se aqueles que resolveram se sentar ao piano e mostrar um pouco de seu talento aos presentes e ao mundo, não estavam apenas buscando um refúgio, dentro de si mesmos?

Nessas horas, de tanto desespero, que vemos e que buscamos a força que podemos ter a partir de algo simples, de uma beleza que, em dias normais, pacíficos, raramente notaríamos. Naturalmente buscamos, mesmo sem querer, uma forma de ver as coisas com olhos menos feios, menos tristes. Tentamos a cada momento achar o que pode nos fazer erguer a cabeça e continuar na luta. Os pianistas ucranianos, talvez mesmo sem saber, acabaram por acender uma pequena chama de esperança em corações desconhecidos.

ATENÇÃO!!

TODO e QUALQUER material presente nesse site é propriedade protegida por LEI!

Para utilizá-los, favor entrar em contato com a autora.
Licença 

Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0

Internacional.

Anúncios