Será que somos lunáticos?

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Seriamos afetados pelas fases da lua? Foto: Magdalena Bertola

Mesmo sem lobisomens e vampiros, a lua cheia ainda recebe a fama de mexer com o comportamento de humanos e outros animais

Magdalena Bertola e Maria Luiza Barbosa

É comum ver, na ficção e nas antigas superstições, histórias de pessoas que, na lua cheia, se transformavam em lobisomens, vampiros e outros seres mágicos. Em Otelo, de Shakespeare, o protagonista justifica um assassinato afirmando que a lua deixa os homens loucos. Mesmo que essas pessoas não se transformassem, literalmente, em monstros, elas passavam a agir de maneira estranha e até violenta. Esse tipo de caso é chamado na ciência de “Efeito Transilvânia”, com uma clara alusão às lendas e fama da região romena, que tem Vlad Tepes, “O Empalador”, como o seu mais conhecido nobre.

A palavra lunático vem do latim lunaticus, significando pessoa que é afetada por períodos de insanidade, atribuídos às fases da lua. Quem foi adolescente nos anos 90 com certeza se lembra da música “Mulher de fases”, da banda Raimundos, que fala de uma namorada aparentemente influenciada pela lua. Já os mais antigos poderão se lembrar de Sérgio Cabeleira, o ‘doidinho’ da novela global Pedra Sobre Pedra, que até flutuava quando a lua aparecia completa.

Fora a parte mitológica, algumas pessoas acreditam que a lua influencia no comportamento das pessoas e animais, especialmente quando cheia, “os alunos ficam mais agitados, principalmente os que têm algum tipo necessidade especial mental”, diz Sueli Estanislau, assistente de direção de uma escola da prefeitura de São Paulo. “Tanto que quando notávamos essa agitação, a primeira coisa que fazíamos era ver a lua, que era cheia”, afirma.

Segundo Sueli, que trabalha na área de educação há 34 anos, as mudanças são notadas de maneiras diferentes, “alguns ficam mais alegres, outros mais agressivos. Dá pra sentir que a escola é mais agitada, parece que eles ficam encantados, temos muito mais problemas com alunos que querem brigar”, diz.

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Segundo veterinária, felinos apresentam mudanças de humor durante a lua cheia. Foto: Magdalena Bertola

 

Lua e fauna

A veterinária Renata Copque diz que a lua influencia, sim, no comportamento dos animais. “Os animais domésticos já estão muito humanizados e perderam um pouco desse comportamento, já os silvestres e selvagens, dependendo da espécie, sofrem influência em coisas diferentes, às vezes tem a ver com reprodução, às vezes tem alguma alteração na pele, alguns ficam mais agressivos, outros menos”, afirma. Mesmo assim, Renata diz que é possível notar nos animais `de casa`. “Felino, geralmente, tem uma mudança mais notável de comportamento, porque a diferença entre gato, leão, tigre, não é muita”, apesar disso, a veterinária afirma que nunca presenciou esse fato de maneira regular em nenhuma das clínicas que já trabalhou, e que apesar de nunca ter atendido um nessas condições, já ouviu falar de mudanças comportamentais em cavalos durante a lua cheia, “isso depende muito da espécie, mas os criadores sempre têm uma história sobre cavalos e a lua”, completa.

O estudo ‘Visitas de cães e gatos em prontos-socorros e o ciclo da lua’[1], em tradução livre, publicado no Journal of The American Veterinary Medical Association, conclui que, dos quase 12 mil casos estudados em onze anos de pesquisa no Centro de Medicina Veterinária da Universidade do Colorado, houve aumento de 28 e 23 por cento nas emergências com mordida, problemas cardíacos, epilepsia e trauma envolvendo cães e gatos, respectivamente.

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Foto: Magdalena Bertola

Ciência ou superstição?

Não há dúvidas que a Lua influencia o que acontece no planeta, já que é o astro responsável pelas marés, porém, outros estudos se mostram céticos quanto à autenticidade do seu efeito no comportamento, como o ‘Much ado about the full moon[2], algo como ‘muita besteira sobre a lua cheia’, publicado no Psychological Bulletin. Os autores não encontraram provas de que a lua cheia, realmente, influencie no comportamento humano, porém, descobriram que, dos 165 universitários estudados, 81 acreditam que as pessoas agem de forma estranha quando a lua está cheia.

O artigo “Efeito do ciclo da lua na entrada de pacientes em salas de emergência psiquiátrica: estudando o Efeito Transilvânia em uma sociedade islâmica”[3], para o International Journal of Culture & Mental Health, estudou o suposto efeito lunar em pacientes com problemas mentais que deram entrada no pronto-socorro de um hospital psiquiátrico no Kuwait, focando somente em casos de muçulmanos, uma vez que, no islã, não existe essa crença no efeito lunar. Nenhuma diferença na biologia dos pacientes foi detectada durante as fases da lua e os pesquisadores concluem que, se existe alguma interferência, essa é psicológica, como um efeito placebo.

Indo de acordo com esses estudos, o astrônomo Augusto Xavier (SP) afirma que a única influência que a lua tem em nosso comportamento é a lúdica. “O espetáculo de uma Lua cheia nos leva a um momento de contemplação, que pode desencadear bem estar e talvez influenciar positivamente o humor, mas a influência da lua é apenas crendice e lenda popular”, afirma.

Mas então, se não existe nenhum tipo de relação entre as fases da lua e o comportamento, por que tantas pessoas acreditam nisso? O estudo ‘Respostas humanas diárias à geofísica, revisão anual e ciclos lunares’[4] acredita que essa associação possa ter surgido a partir do fato de que os três dias da lua cheia aumentavam a atividade noturna em antigas sociedades, pois é a época em que o astro fica mais brilhante e deixa as noites mais iluminadas, que traria chances de caça noturna, viagens e outras atividades que reduzem o tempo de sono das pessoas, o que pode causar crises obsessivas em indivíduos suscetíveis ao transtorno bipolar e também aumentar as chances de epiléticos terem convulsões. Assim, as doenças e problemas surgidos nessa fase seriam, automaticamente, associados à lua cheia.

A ciência duvida, as pessoas acreditam. De qualquer forma, melhor ficar de olho no céu.

[1] Canine and feline emergency room visits and the lunar cycle: 11,940 cases, Raegan J. WellsJuliet R. GionfriddoTimothy B. HackettSteven V. Radecki, (1992-2002)
[2] Much ado about the full moon, J. Rotton e I.W. Kelly, (1985)
[3] Lunar cycle effect on patient visit to psychiatry hospital emergency room: studying the ‘Transylvanian effect’ in an Islamic society, Abdulmohsen Alhumoud e Hani Alhemoud (2014) 
[4] Human Responses to the Geophysical Daily, Review Annual and Lunar Cycles, Russell G. Foster e Till Roenneberg (2008)

 

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