Brás: antes Itália, agora La Paz

O antigo bairro já foi considerado um dos mais europeus de São Paulo, onde os moradores antigos lembram com saudosismo do passado

Por Magdalena Bertola

O Brás é um bairro operário situado no início da zona leste da Capital paulista, sendo próximo, também, do centro. Segundo o livro “Brás, Pinheiros, Jardins – Três bairros, três mundos”, de Ebe Reale, o início do bairro data da metade do século XVIII e é ligado à Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, que foi erguida pelo português José Brás e, por isso, o bairro foi assim batizado.

Já o autor Paulo Cursino de Moura afirmou que a região tem esse nome por conta de Brazílio de Aguiar Castro, filho da Marquesa de Santos, Domitila de Castro e Canto Melo, que herdou da mãe as terras da Chácara do Ferrão.

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A arquitetura do Brás nos remete há uma época antiga mas, infelizmente, decadente (foto: Magdalena Bertola)

No século XIX houve a urbanização e também a industrialização de São Paulo com a cultura do café. No ano de 1867 a estação do Brás foi inaugurada, sendo o ponto de partida de diversas indústrias e do pequeno comércio do local, além de ter moradias e terrenos baratos, o que contribuiu para que os trabalhadores recém-chegados na cidade se instalassem ali. Nessa época, foi inaugurada a Hospedaria dos Imigrantes no Brás, substituindo a antiga que havia no Bom Retiro, recebendo os primeiros “clientes” no final da década de 1880.

No início do século XX, o bairro já era referência da comunidade italiana, com as festas de Nossa Senhora de Casaluce e São Vito. Além da comunidade italiana, o bairro também era referência da comunidade grega, armênia e portuguesa.

“Mas já nos anos 50 começou a migração de nordestinos para o bairro”, conta Alfredo José Rente, morador do Brás há 62 anos, sobre a migração de trabalhadores vindos do norte e nordeste do país. O síndico de um edifício localizado próximo à padaria Nova Garoto, veio de Portugal aos 18 anos e se considera um brasileiro “sou mais brasileiro do que vocês [brasileiros], pois eu escolhi ser”, brinca o senhor de 80 anos, conhecedor de personalidades como Vanderleia, Reginaldo Rossi e Francisco Cuoco da época em que possuía uma papelaria e loja de discos no bairro.

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Padaria Nova Garoto – no Brás desde 1944 (foto: Magdalena Bertola)

“Hoje em dia, vivo em La Paz”, brinca novamente Seu Francisco, sobre a atual população boliviana do bairro. “O Brás envelheceu. Antes haviam as porteiras do Brás, onde os trens passavam. Também havia o “flute”, que era quando as moças vinham passear aqui e conhecer possíveis namorados”, conta o antigo morador. Uma das suas críticas é sobre o fato de o bairro não ter continuado com antigas características tradicionais, como os bondes, “Na Europa ainda é possível andar de bonde. Atrapalha o trânsito, mas acredito que deveria ter sido preservado, assim como os prédios. Esse prédio aqui foi de classe alta por muito tempo, os apartamentos são grandes e bons”, afirma.

A esposa de Seu Alfredo, Maria Apparecida, “com dois Ps, porque é antigo”, afirma que hoje só mora no Brás quem realmente ama, “Hoje vemos pessoas esfaqueando as outras nas ruas. O nosso Brás, infelizmente, ficou feio, não tem mais aquela família, aquela coisa gostosa”, diz. “Quando era criança, eu morava no Belém, mas passeava muito por aqui, lembro do antigo teatro, onde diversos cantores se apresentavam, e dos carnavais de rua”, relembra, “Aqui era um lugar bom, tinha famílias distintas. É uma pena que o Brás acabou”, completa a senhora de 75 anos.

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Seu Alfredo e Dona Maria Apparecida – mais de seis décadas no Brás deram ao casal a possibilidade de ver a ascensão e queda do bairro (Foto – Magdalena Bertola)

Mas algumas pequenas tradições ainda se mantém no bairro, como a já mencionada celebração da Nossa Senhora de Casaluce, festa italiana com danças típicas e fartura de alimentos tradicionais preparados por voluntários e que são servidos em para uma média de 30.000 pessoas nas cerca de 30 barracas espalhadas pela Rua Caetano Pinto, onde a maioria dos italianos provenientes de Nápole se instalaram.

Todo o dinheiro arrecadado na festa é revertido para trabalho com pessoas carentes e reformas na paróquia. Segundo o site da própria Casaluce (http://www.casaluce.com.br), a celebração foi a primeira de origem italiana de São Paulo, já que ocorre desde 1900, todo mês de maio.

Outra festa tradicionalmente italiana que acontece no Brás é a da Associação Beneficiente São Vito Mártir, fundada no ano de 1919, em homenagem ao padroeiro da cidade de Polignano a Mare, na Itália. As comidas típicas também são preparadas por voluntários, assim como na festa de Casaluce, e a renda da celebração é revertida na manutenção da creche São Vito, que ajuda cerca de 115 crianças de um a quatro anos.

A celebração acontece anualmente no fim do mês de Maio até o início de Julho, na Rua Fernandes Silva, 96, e na Rua Polignano a Mare, número 225.

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O casal do Brás

*Crônica publicada no site Tradições Paulistanas

Magdalena Bertola

O sotaque português é fraco, mas presente. Por trás do boné e dos óculos, um par de olhos azuis brilha ao falar daquele antigo bairro, onde mora há 62 anos. Alfredo José Rente saiu do velho país europeu aos 19 anos, hoje, com 80, ainda fala com saudosismo do flute, das porteiras, da sua antiga tabacaria e papelaria. O Brás, onde ainda mora, é parte de seu coração.

Como ele mesmo diz, é mais brasileiro do que eu. Por que? Porque ele escolheu. Decidiu ser brasileiro, ficar aqui, ser parte desse povo grande e feliz. Junto com sua mulher, Maria Apparecida, são entusiastas do bairro. Com olhos meio marejados, Maria se queixa da crescente violência, do enfeiamento dali. Ela, que desde criança frequentava o antigo bairro europeu, na época que morava no Belém, diz que ali só fica quem realmente ama o lugar.

O casal é uma porta de entrada para o passado paulistano. Suas histórias e lembranças falam de uma época esquecida, onde ali se instalavam pessoas de classe alta, personalidades da música e do teatro. Maria lembra dos carnavais de rua, e a saudade é forte na voz e olhar, que se perde um pouco no meio da lembrança.
Passar duas horas em conversas com o casal sobre o passado e presente do bairro faz qualquer um entrar no seu mundo. Num apartamento antigo, é possível ver fotos, ouvir suas histórias… me senti tão aconchegada como parte da família. No salão de festas, fui levada aos anos 50, vi pessoas dançando, vestidas finamente, mulheres com cabelos e maquiagem perfeitas, homens arrumados com muito esmero. Entrei na realidade daquele casal, entendi o que diziam, me senti feliz e, ao mesmo tempo, triste.

É incrível como os antigos, quando abordados para falarem de algo que gostam, abrem o coração para alguma jovem estudante, meio perdida ali, no meio do comércio ambulante. Comércio ambulante que cresce cada dia mais. Seu Alfredo diz que hoje já mora em La Paz, já que a maioria da população do bairro é de origem boliviana. Não que se queixe quanto à nacionalidade dos moradores, o que dói no coração do senhor e até no meu, depois de ouvir seus relatos, é o crescente descaso com o local.

Dá saudades do Brás, mesmo sem tê-lo conhecido, dá tristeza de ver no que se transformou. Quando se conversa com algum entusiasta de algo, que consegue te levar ao passado, é difícil não se emocionar. Vejo que eles, apesar de viverem em 2014, juntos, ainda vivem antigamente. Juntos estão sempre na época de ouro do bairro, juntos vivem e revivem aquilo que tanto amaram e os fez feliz.

Posso dizer, então, que essa foi uma das maiores histórias de amor que já presenciei. E somente a saudade e a lembrança, ainda mantém vivo aquele lugar.

 

 

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Alfredo e Maria Apparecida Rente em seu apartamento, no Brás (SP)

Fotos: (antiga)Arquivo pessoal do casal, reprodução Magdalena Bertola; (atual) Magdalena Bertola

obs: Sim, sou eu fotografando a foto, lol

 

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O coração da metrópole

Magdalena Bertola

Avenida Paulista (Foto: Magdalena Bertola)

Avenida Paulista (Foto: Magdalena Bertola)

O céu cinza se funde com as paredes de concreto. Rabiscadas por pichações em preto, contrastam com as cores dos grafites, parcialmente colorindo a tão conhecida cidade da garoa.

Tantos dizem sobre sair desse caos, deixar a poluição e a violência que a antiga Província de São Paulo, hoje uma metrópole, trouxe com o progresso.Mas a verdade é que, no fundo, talvez bem no fundo, o coração bata mais forte por essa grande selva de pedra.

São Paulo é uma jóia no Brasil, mesmo com os ônibus lotados, os alugueis caros, engloba tudo e todos. Seja na segunda, seja na sexta, sábado ou domingo. Não importa se sua fome é de sushi ou acarajé, lasagna a bolognesa ou vegetariana, se seu esqueleto balança ao som de funk ou de rock. Se você é do Capão ou dos Jardins, ou se sua diversão fica na Augusta ou em Moema, São Paulo é assim, tão coração de mãe, que qualquer um aqui acha seu canto, seu espaço, seu grito na multidão.

Seja branco, seja negro, oriental, ou mesmo tudo isso, e mais um pouco, junto, São Paulo é o espaço de tantos olhares, de tantos gestos, sotaques e culturas. Nossa cidade é tão plural, tão igual nas diferenças, que, no fim, qualquer um pode chamar a grande metrópole de lar.

Sem São Paulo O meu dono é a solidão 

Diga sim, que eu digo não

Inocentes, ‘São Paulo’

Bairro do Brás (2014)

Bairro do Brás (2014) – foto: Magdalena Bertola

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