Velhos olhos jovens

*crônica publicada no site Tradições Paulistanas

 

Magdalena Bertola

Noventa e dois anos e muita disposição. Mesmo com a idade, Floripes Palante, viúva do antigo craque do Palmeiras, Osvaldo Palante, não se faz de rogada a dar umas belas passeadas pela moderna São Paulo. Munida de sua bolsa, sai de sua casa, em uma vila no bairro da Pompéia, e pega ônibus para passear pela cidade.

-Tenho noventa e dois, mas estou bem, né? – pergunta, afirmando.
É incrível como vemos, atualmente, os jovens tão preguiçosos, tão cheios de cansaços e stresses, e então, uma senhora de tanta idade mostra que não importa se seu RG é antigo ou não, basta que sua alma ainda seja jovem. Lembra-se com muito orgulho e felicidade da época em que conheceu o jogador, que foi seu marido por tantos anos. Ela trabalhava em uma empresa japonesa nos anos 40, onde ele foi empregado nos dias em que não tinha treino. Lá, ela era a única mulher, no meio de tantos homens e numa sociedade arcaicamente machista, “Ele foi o único que eu aceitei tomar um sorvete”, diz rindo. É, quando o amor bate na porta, não podemos pestanejar. Pestanejar como as grandes pestanas do marido de olhos verdes, que ela tanto fala da beleza e porte imponente. É como voltar no tempo com sua conversa, suas histórias sobre os bailes e como, naquela época, tudo era mais respeitoso. Nem encostar rosto no rosto podia nos bailes, já que havia uma espécie de segurança que sempre tirava a felicidade, uma felicidade tão banal atualmente como encostar o rosto, daqueles jovens casais.

Em sentido horário: Floripes com as premiações do marido, Osvaldo Palante(foto: Magdalena Bertola); O casal na lua de mel; Recorte de jornal de 1944 com Floripes na torcida (Fotos: arquivo pessoal família Palante.

Em sentido horário: Floripes com as premiações do marido, Osvaldo Palante(foto: Magdalena Bertola); O casal na lua de mel; Recorte de jornal de 1944 com Floripes na torcida (Fotos: arquivo pessoal família Palante).

O brilho do olhar sempre se acende um pouco mais quando o filho traz as antigas fotografias e recortes de jornal com o pai. Na pequena sala, há um hack com diversas premiações e homenagens ao veterano, que ela mostra com muito orgulho. Já faz catorze anos que seu amor se foi dessa para melhor, e ela diz que ainda é difícil, a vida segue, mas o amor continua. Nem quando foi cantada por outro veterano do Palestra, Ipe, como é chamada pela família e amigos, cedeu. Diz ela que era capaz que Palante voltasse do além para ter uma crise de ciúmes. E nisso ela acredita, com sua fé espírita. E assim segue a vida, lembrando do amor, dos jogos, da beleza de ter sido uma “maria chuteira das antigas”, na época em que os jogadores ganhavam pouco, e não milhares e milhares. As fotos dos jornais e dos encontros de jogadores veteranos são sempre sorrindo, com o olhar aceso e é possível ouvir o riso só de ver as imagens.

A cidade, naquela época, não era tão grande. Andava-se de bonde, as mulheres eram tiradas para dançar tango nos bailes por homens que as desejavam cortejar e até casar. Os garotos costumavam tentar ver os joelhos das moças, tão diferente de hoje em dia em que joelhos são algo completamente banal. “Hoje já se vai direto aos finalmentes”, diz com uma crítica bem humorada, já que naquela época, tudo era mais complicado e, ao mesmo tempo, simples.

Pessoas como essa senhora, que tanto já passou na vida, que tem uma vivência tão antiga na selva de pedra, conseguem trazer uma nostalgia fictícia, já que muitos de nós não vivemos naquela época. É possível sentir a felicidade tão simples pelas palavras ditas sobre o que era antigamente. Apesar de não haver saudosismo da parte dela, existe uma saudade meio velada. E essa saudade surge no coração até de jovens ao ouvir suas histórias.

E é dessa maneira que a nossa cidade cresce, se modifica, muda sua arquitetura, costumes, sotaques. Mas ainda existe, no coração de antigos moradores dessa grande cidade, aquela vida simples, aquela cidade com menos transito, as roupas finas e elegantes que até os mais pobres vestiam. E posso dizer, dá saudade de uma São Paulo que eu nem cheguei perto de conhecer.

 

 

 

 

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O casal do Brás

*Crônica publicada no site Tradições Paulistanas

Magdalena Bertola

O sotaque português é fraco, mas presente. Por trás do boné e dos óculos, um par de olhos azuis brilha ao falar daquele antigo bairro, onde mora há 62 anos. Alfredo José Rente saiu do velho país europeu aos 19 anos, hoje, com 80, ainda fala com saudosismo do flute, das porteiras, da sua antiga tabacaria e papelaria. O Brás, onde ainda mora, é parte de seu coração.

Como ele mesmo diz, é mais brasileiro do que eu. Por que? Porque ele escolheu. Decidiu ser brasileiro, ficar aqui, ser parte desse povo grande e feliz. Junto com sua mulher, Maria Apparecida, são entusiastas do bairro. Com olhos meio marejados, Maria se queixa da crescente violência, do enfeiamento dali. Ela, que desde criança frequentava o antigo bairro europeu, na época que morava no Belém, diz que ali só fica quem realmente ama o lugar.

O casal é uma porta de entrada para o passado paulistano. Suas histórias e lembranças falam de uma época esquecida, onde ali se instalavam pessoas de classe alta, personalidades da música e do teatro. Maria lembra dos carnavais de rua, e a saudade é forte na voz e olhar, que se perde um pouco no meio da lembrança.
Passar duas horas em conversas com o casal sobre o passado e presente do bairro faz qualquer um entrar no seu mundo. Num apartamento antigo, é possível ver fotos, ouvir suas histórias… me senti tão aconchegada como parte da família. No salão de festas, fui levada aos anos 50, vi pessoas dançando, vestidas finamente, mulheres com cabelos e maquiagem perfeitas, homens arrumados com muito esmero. Entrei na realidade daquele casal, entendi o que diziam, me senti feliz e, ao mesmo tempo, triste.

É incrível como os antigos, quando abordados para falarem de algo que gostam, abrem o coração para alguma jovem estudante, meio perdida ali, no meio do comércio ambulante. Comércio ambulante que cresce cada dia mais. Seu Alfredo diz que hoje já mora em La Paz, já que a maioria da população do bairro é de origem boliviana. Não que se queixe quanto à nacionalidade dos moradores, o que dói no coração do senhor e até no meu, depois de ouvir seus relatos, é o crescente descaso com o local.

Dá saudades do Brás, mesmo sem tê-lo conhecido, dá tristeza de ver no que se transformou. Quando se conversa com algum entusiasta de algo, que consegue te levar ao passado, é difícil não se emocionar. Vejo que eles, apesar de viverem em 2014, juntos, ainda vivem antigamente. Juntos estão sempre na época de ouro do bairro, juntos vivem e revivem aquilo que tanto amaram e os fez feliz.

Posso dizer, então, que essa foi uma das maiores histórias de amor que já presenciei. E somente a saudade e a lembrança, ainda mantém vivo aquele lugar.

 

 

casaldobras

Alfredo e Maria Apparecida Rente em seu apartamento, no Brás (SP)

Fotos: (antiga)Arquivo pessoal do casal, reprodução Magdalena Bertola; (atual) Magdalena Bertola

obs: Sim, sou eu fotografando a foto, lol

 

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