O cru retrato da guerra

Resenha crítica – Hiroshima, de John Hersey
Por Magdalena Bertola

Eram oito e quinze da manhã do dia seis de agosto de 1945. A cidade acordava como havia acordado há tempos naqueles anos de guerra. Algumas pessoas iam trabalhar, outras tentavam achar um lugar seguro para seus pertences, para que não fossem destruídos por possíveis ataques de B’s52, outros apenas viam o que os vizinhos faziam.

Nesse cenário, o clarão, que foi descrito por John Hersey, como um ‘clarão silencioso’, rasgou o céu daquela cidade japonesa. Seu nome? Hiroshima.

No início, ao se olhar a capa com a declaração “A mais importante reportagem do século XX”, pode-se achar que é exagero, que estão ‘forçando a barra’. De fato, é uma declaração um tanto quanto perigosa, já que a produção jornalística é extremamente vasta e recheada de bons produtos. Só tem um detalhe, Hiroshima pode, sim, ser considerada como uma das mais importantes reportagens do século passado. Nenhuma outra publicação trouxe tamanho retrato da destruição causada pelos Estados Unidos e pela Segunda Guerra Mundial – sem contar, claro, os relatos feitos sobre os judeus. Até então, o Japão era apenas um aliado da Alemanha Hitlerista. Não merecia perdão, haviam atacado Pearl Harbour, mereciam a bomba atômica, mereciam servir de exemplo. Mas se esqueceram que não foram os civis japoneses que começaram a guerra. Se esqueceram que, ali, haviam inocentes, crianças que nem sequer sabiam o que era a guerra, ou que se estava em guerra.

Em 153 páginas, o jornalista, na época em serviço à famosa revista The New Yorker, traz aos leitores a imagem da destruição. Hiroshima não virou pó, como alguns podem ter aprendido. É certo que alguns moradores – vítimas – viraram, sim, pó. Morreram sem saber por quê, nem como. Morreram sem saber que morriam, sem saber que morreram, simplesmente deixaram de existir. Outros ainda deixaram um rastro, uma sombra de humano nos escombros da cidade.

O livro, que foi batizado com o nome da própria cidade alvo, mostra como, após ter sido usada de experiência para uma nova arma de destruição em massa, a cidade morreu, ao mesmo tempo que sobreviveu, por alguns dias, moribunda, com a respiração pesada e os enjoos de quem é contaminado pela radiação, mas com o silencio, a espera muda pela morte que só poderia vir de um povo como o japonês, tão ligado em não incomodar os outros.

Nas páginas que se seguem à explosão em forma de cogumelo, Hersey nos mostra, pelo olhar de seis sobreviventes, o que ocorreu ali, como foi ficar horas embaixo de uma estante imensa, acreditando não ter mais uma das pernas, ou como foi ser o único ileso dentre tantos mutilados, meio vivos meio mortos, sem olhos nas órbitas, sem pele no corpo, implorando por água, por tratamento, por ajuda, por vida, ou por morte, qualquer coisa que pelo menos diminuísse um pouco o sofrimento causado não se sabia nem pelo quê, nem como, só se sabia que havia acontecido. E o clarão, ele era responsável. Silencioso, brilhante, fatal.

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Fonte da imagem: Ruteando

Hiroshima prende o leitor porque, apesar de descrever detalhadamente o cenário de horror de uma cidade devastada pela maldade e mesquinhez humana, mostra que ali ainda existia um pouco de amor, ou pelo menos de civilidade. Alguns não dormiam, como o médico Terufumi Sasaki que, quando finalmente conseguiu pegar o trem que, incrivelmente, ainda funcionava, para visitar sua mãe e deixa-la a par de sua sobrevivência, caiu na cama para dormir por três dias. Fica-se ávido para saber o que aconteceu em seguida.

Os depoimentos dos seis sobreviventes, pincelados por histórias menores de outras vítimas, nos transporta para aquele cenário de tragédia, nos faz ver corpos pela rua, nos faz imaginar nossa casa reduzida a escombros, nos faz ouvir os gritos abafados de pessoas soterradas no que antes eram suas casas e faz o estomago revirar, o coração apertar ao não poder tirá-las de lá, por não poder salvá-las, dar-lhes uma segunda chance, nem que fosse uma sobrevida. Dói. Dói como doeu no padre alemão Wilhelm Kleinsorge, que não conseguiu salvar quem gritava e gastava os últimos minutos de oxigênio impulsionado pelo instinto de sobrevivência, sugado pela terra e pelos restos das casas.

A corrida pela vida – a própria e a dos outros -, dos sobreviventes, em especial dos religiosos e dos médicos, que se empenhavam em pelo menos tentar diminuir o sofrimento daqueles em pior estado de saúde do que eles, é emocionante. A história da moça que trabalha na fábrica de fundição de estanho, que tinha um noivo, e ficou prensada embaixo de uma estante, depois ficou dois dias ao lado de pessoas extremamente mutiladas, mais até do que ela própria, nos faz pensar: ‘e se fosse eu?’.

A senhorita Toshiko Sasaki, a qual parte da história acabou de ser descrita, não foi visitada pelo futuro esposo e, quando finalmente se viram, acabou por descobrir que a família do rapaz não queria mais que seu filho se casasse com ela. O motivo era o preconceito que havia surgido pelos hibakusha, ou os sobreviventes da bomba atômica. Para piorar a situação de Toshiko, ela agora era aleijada, sua perna não funcionava como antes. Ela nunca arranjou um marido e, apesar de no início de sua amizade com o padre Kleinsorge não acreditar em Cristo, ao cabo que perguntou ao clérigo que, se o deus dele era tão bom, porque teria então deixado tamanha catástrofe acontecer com tanta gente direita, acabou por se tornar uma freira. E na ordem das Auxiliatrices du Purgatoire fez seus votos e, de Toshiko passou a ser Dominique Sasaki.

Hersey a descreve em uma frase que mostra a mudança que tamanho desastre, ou desgraça, como queira chamar, pode ter na vida de alguém: “Seu [da senhorita Sasaki] maior talento consistia em ajudar os internos a morrer em paz, ela dizia. Tinha visto tanta morte em Hiroshima, depois da bomba, e presenciara tanta coisa estranha que as pessoas faziam ao confrontar-se com o fim, que agora não se surpreendia nem se assustava com nada”.

Todos os personagens acabaram por, de alguma maneira, tentar mudar a realidade do que sobrou de Hiroshima e seus moradores que, apesar de terem padecido junto com a cidade, não a deixaram morrer e a trouxeram, aos poucos, no início da maneira mais básica e simples, da maneira como podiam naquele cenário de guerra, de volta à vida.

Dividimos com as vítimas a dúvida sobre o que os havia atacado. Seria gasolina? Seria um ataque de ‘cesta de flores Molotov’ – Molotoffano hanakago, até a maneira dos japoneses descrever um ataque aéreo, tão violento quanto os Molotov, consegue ser poético – ? Não sabiam, mas especulavam.

Todo o horror de um ataque atômico, o horror da guerra que muitos de nós só conhecemos pelo cinema, torna-se real ao ler Hiroshima. John Hersey consegue, de maneira simples, mostrar a quem está tão distante, a quem nem sabe o que é guerra, o motivo real de se desejar o fim dos conflitos, principalmente daqueles movidos pela imensa megalomania dos governantes, de desejar a verdadeira paz. Não somente a mim ou a você, mas a todos, não importa a religião, a língua, a etnia. Só importa a vida.

Quarenta anos depois, os hibakusha ainda sentiam os efeitos daquele ataque. Para alguns, ainda houve vida, para outros, apenas sobrevida e, para todos, o vigor nunca mais foi o mesmo. Perderam a força, não do pensamento, não da vontade, mas do corpo. Não eram mais os mesmos, jamais seriam.

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