[Crônica] Retrato póstumo de um Lord Gato

E, hoje, um dos meus maiores amores se foi

Por Magdalena Bertola

Não passava de dez centímetros quando o vi. Branco, com manchinhas rajadas, só um olho aberto. A garganta potente rasgava os ouvidos com os berros de um recém-nascido.

Eu tinha doze anos quando eu e minha mãe o resgatamos em um terreno baldio, ao lado da casa da minha tia. Uma mamadeira, que chegava a ser maior que ele, foi fonte de seu sustento nos primeiros meses. Com a ajuda de nossa cadela vira-lata, Pitucha, e de nosso gato preto, Simba, ambos já um tanto velhos, ele foi criado.

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Schumy logo que foi resgatado (Fotos: Arquivo Pessoal)

Corria tanto, desajeitado, aprendendo a andar, que foi batizado de Schumacher, mas de alemão, só tinha o nome. Tinha uma cara de bravo, aliás, era o stress em pessoa, quer dizer, em gato.  Diremos que era o Grumpy Cat da vida real. Mas a verdade é que ele parecia mesmo um Lord britânico. O jeito meio superior, com cara de poucos amigos, me fazia imaginá-lo vestido com um belo sobretudo, cartola e monóculo, andando com uma bengala polida que, apesar de  não precisar, usava só pelo estilo. É, o gordinho faz a imaginação voar longe. Só quem o conheceu sabe, só quem o conheceu consegue entender.

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Em sentido horário: Pitucha sendo mãe postiça; Schumy com seus dez centímetros; Eu (Magdalena) desenhando e Schumy dormindo; Simba e Schumy logo que foi resgatado. Fotos: Arquivo pessoal

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Hoje, nesse cinco de dezembro acinzentado, garoento, um dia britânico, meu Schuminho deu adeus ao mundo. Deve ter ido ao plano superior de carruagem e, acho, que quem o recebeu foi minha bisavó Candinha. Há uns cem anos, ela também tinha dessas de dar mamadeira pra bicho.

Os cinco dias de internação não nos deu chance de nos despedirmos, mas foi a única maneira que encontramos de tentar reverter a doença hepática que acometia sua vitalidade. Mas não deu, o pançudo decidiu ir, cansou. Ele teve seu tempo, teve muito amor em seus treze anos de encarnado, e pensar que ele esteve comigo por mais da metade da minha vida! É, isso que dói. Perguntei a minha mãe como iríamos viver sem ter o obesinho, não obtive respostas.

Hoje chorei o que não chorava há tempos.

Mas quando cobri seu corpinho de quatro quilos – bem mais magro do que era quando recebeu seu apelido -, senti como se, finalmente, o tivéssemos trazido de volta para casa. Pela última vez, para se despedir, o obesinho veio até aqui.IMG-20141208-WA0015

O enterramos ao pé de uma árvore.

Se foi tranquilo e deixou saudades. Foi calmo e deixou memórias, todas boas. Se foi, mas não foi, estará sempre aqui, no coração, deixando o peito quentinho e os olhos mareados.

Hoje a casa ficou mais cinza, mas no céu surgiu um raio de sol por entre as nuvens carregadas.

E com a garganta embargada dizemos: nós te amamos, Schumy.

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